erasmus · vida de hospital

os interiores do estágio

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quinta-feira e eu já estava a planear quando é que ia almoçar (almoço grátis na cantina é só a melhor cena dos estágios!!!!) quando a enfermeira entra no quarto e diz que o meu tutor me estava a chamar ao bloco. oi?? desde quando é que alguém me chama onde quer que seja? sobretudo o meu tutor – ele não me andava a ignorar desde quase o início do estágio?

de qualquer forma, dou corda às sapatilhas e agradeço o facto de, finalmente, naquele dia me lembrado de pôr uma barrinha de cereais na bata. visto-me – aperto bem as calças que já ouvi histórias de gente que não o fez e depois elas começaram a deslizar, deslizar, e eles com as mãos ocupadas – tento arranjar umas socas que tenham um nome o menos visível possível, para ninguém me acusar de roubo, ponho a touca e a máscara. o meu tutor não se enganou: queria-me mesmo ali; ensina-me a desinfetar. entro no bloco e a enfermeira instrumentista pergunta-me qual o tamanho de luvas que queria. Respondi que não sabia bem porque era a primeira vez. A enfermeira fez então um sorriso trocista que se viu até por cima da máscara e diz: “quando te sentires mal, avisa”.

Com um equipamento mais estéril que o útero que íamos retirar da mulher, comecei a contar o número de cirurgiões. Eins, …, hãã, okay. Não é que eu não saiba dizer “dois” em alemão (“zwei”, seus haters que não acreditam em mim!), mas era só mesmo um cirurgião. E eu.

E ele ia cortando a pele, atravessando a gordura, depois os músculos, o grande omento. E eu, atentíssima ao alemão, para tentar discernir quando era para mim que falava e o que mesmo tinha eu de fazer: segurar os intestinos (tão escorregadios!), o útero, agora segura aqui mas com cuidado que não dá jeito que rompas o vaso, agora com força que senão eu não vejo nada.

A enfermeira foi almoçar, mas nem por isso o enfermeiro que a substituiu tinha mais fé em mim: pensou que eu ia fugir quando o médico me disse para trocar de lado com ele. Voltou a enfermeira e eu continuava com o meu trabalho de agarradora pouco qualificada (que entretanto tinha tocado com a minha máscara, não estéril, no braço do cirurgião, obrigando-o a pôr uma manga extra, e pedido aos assistentes do bloco para me darem um jeitinho nos óculos – antes os óculos a caírem do que as calças, de facto). Mas aguentei-me, com mais ou menos dores nos bracinhos (e nas pernas). No fim, suturou as várias camadas e ia a meio de agrafar a pele quando pensei: “bem, isto aqui também eu faço” e lhe pedi para ser eu a fazer.  É giro, quero um agrafador daqueles para casa.

O cirurgião agradeceu-me (grande lol, é mais o contrário) e eu fui, finalmente, almoçar.

O raio da cantina já tinha fechado. Mal-paga desde o início!

imagem retirada daqui.
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