vida de hospital

vida.

tinha chegado à noite, depois das dores e dificuldades em respirar se tornarem insuportáveis até para quem tinha tido um enfarte (desde) há uma semana, mas se tivesse recusado até então a ir para o hospital para ser diagnosticado e tratado.

7 e 30 da manhã, chegam todos os médicos ao serviço. 7 e 30 da manhã, entra o doente em paragem cardíaca. todos correm para lá: anestesistas-intensivistas, cirurgiões cardíacos, enfermeiros (muitos, muitos), o cardiologista, perfusionistas, no fim estudantes; um corrupio de gente a trazer coisas, a ajudar, a chamar ajuda.

massagem cardíaca não resultava. entre o nada e a pouca esperança, decidiram abrir o tórax do doente, ali mesmo, na cama dos cuidados intensivos, séptica em vez de asséptica, e massajar diretamente o coração.

resulta, mas encontram um buraco no ventrículo direito que pensam ser da massagem intracardíaca; reparam-no. no meio do sangue veem um buraco no ventrículo esquerdo (que o cirurgião tampona com o próprio dedo), sinal de péssimo prognóstico, mas já que já ali estavam, de peito aberto nos cuidados intensivos, não houve dúvidas em tratar. sangue no chão, no aspirador, nas mãos dos médicos. as transfusões vinham em barda, as enfermeiras tentavam não se baralhar mais nos papéis que tinham de assinar: 33 unidades de sangue só aqui. diga 33. que ele não diz.

põe-se os tubos da máquina que vai ajudar externamente a fazer de coração na artéria e veia femoral, para o coração de verdade poder descansar e recuperar. fecha-se o esterno, fecha-se o tórax, e espera-se.

e ele, ajudado (substituído?) pelo ventilador, pela heart-lung machine, pela medicação, velado 24 sobre 24 horas por pelo menos uma enfermeira dedicada só a ele, aguenta-se.

a família, afastada, vem e assusta-se com tantos tubos. diz que na última vez que falaram, ele disse que a sua vida era miserável, não fazia sentido, e que a melhor coisa que lhe podia acontecer era ter um ataque cardíaco e morrer. ironia da vida.

mas os cuidados continuavam, as secreções do tubo ventilador eram aspiradas, as análises feitas várias vezes ao dia. os dias vão passando. faz-se uma ecografia cardíaca por rotina: mostra uma rutura interventricular.

 

o coração estava demasiado danificado. aqueles tratamentos, mais do que uma última oportunidade, pareciam agora uma obstinação. informa-se a família, pergunta-se se precisam de o ver assim por uma última vez, e começa-se a tirar as máquinas.

a linha na frequência cardíaca torna-se reta. a intensivista olha para o relógio e memoriza a hora. vão-se tirando os tubos, um a um. sem tubos, pele limpa, roupa lavada, o homem parece em paz.

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